sexta-feira, 10 de maio de 2013

A revolta das caxirolas

A revolta das caxirolas
Dilma ficou mexida com o objeto criado por Carlinhos Brown, mas a torcida deu o troco
Por Ronaldo Bressane*
Será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela? Essa semana, a durona presidenta Dilma Rousseff ficou mexida. Por um pequeno objeto de plástico que contém... pedacinhos de plástico. Ou será que a responsa por amolecer tão duro coração foi do negão que empunhava o tal objeto? "Eu queria começar cumprimentando o Carlinhos Brown", começou ela em seu discurso, na inauguração da mostra O Olhar que Ouve (sem h), de Brown, em Brasília, essa semana. "As pessoas que têm talento, como ele, acham normal ter talento. E acham normal inventar a caxirola", prosseguiu em seu discurso do crioulo doido. Decerto, o amanteigado texto da presidenta teve inspiração no compositor baiano, autor de versos imortais como "Vê-la num largo, largo longo/ Sinto-me sem mi/ Mas aquilo que busco lá longe/ Ia no bar e vi/ Dia nublado, Leblon, iê, iê".
E prosseguiu sua fala: "O Carlinhos é um grande artista. E ele expressa um mundo diverso, mas muito específico, do Brasil, e especialmente da Bahia. A pluralidade, o fato de que esse mundo tem milhões de aspectos". Pode crer, dona Dilma. Prossiga. "E agora o Carlinhos, nessa sua quase ingênua aceitação de que ‘ah, não, é muito fácil fazer uma caxirola’, nos encanta, porque ele combina aí a imagem verde e amarela da caxirola, esse fato que nós estamos falando de um plástico verde, de um país que tem a liderança da sustentabilidade no mundo e ao mesmo tempo é um objeto capaz de fazer duas coisas: de combinar a imagem com som e nos levar a gols." Oi?
Ah, é muito fácil fazer uma caxirola. Começa pelo fato de que ela já foi feita: na verdade, não passa de um caxixi. Originário da África, mais especificamente da região do Congo e de Angola, território da etnia bantu, conforme conta Priscila Maria Gallo em sua tese Caxixi: Um Exemplar da Percussão Afro-Brasileira e Sua Contribuição para Reflexões de Perspectiva Etnomusicológica, o instrumento já era usado como acompanhamento de rituais e liturgias religiosas. Aqui, segue sendo utilizado tanto em terreiros de candomblé quanto em templos evangélicos (sim, há sambistas gospel que adotam a diabólica percussão). Porém, seu emprego mais frequente é como acompanhamento do berimbau, outro instrumento congo-angolano, nos jogos de capoeira.
Na modesta interpretação deste frequentador das arquibancadas que vibram com a extraordinária percussão da Gaviões da Fiel, não há nada de errado em, antropofagicamente falando, pegar um instrumento de origem religiosa, transformá-lo em marcador de ritmo para uma luta marcial e, agora, recontextualizá-lo como apoio para cantos de torcida.
Seria mesmo brilhante se Carlinhos Brown tivesse inventado o novo uso para o caxixi enquanto torcedor do seu Bahia, e mais bacana ainda se a torcida tricolor a transformasse em marca registrada - de jeito espontâneo. Do mesmo jeito espontâneo como as torcidas da Portuguesa e do Atlético Mineiro tradicionalizaram suas charangas de metais e sopros; ou os sul-africanos inventaram as insuportáveis vuvuzelas; do mesmo jeito espontâneo que o garoto Antonio dos Santos Veiga criou o mais famoso e mais complicado canto de torcida do país, "Aqui tem um bando de loucos/ loucos por ti Corinthians/ Praqueles que acham que é pouco/ Eu canto por ti, Corinthians/ Eu canto até ficar rouco". 
Não precisou de uma Cantobrás ou de uma Lei Rouanet para Veiga inventar seu canto, tampouco o ofereceu em troca de royalties - embora o agressivo e oportunista marketing do Corinthians o tenha usado à exaustão.
No vídeo de propaganda da caxirola, Brown aparece marketeando sua invenção - criada em sociedade com a Brasken, maior produtora de resinas termoplásticas das Américas, empresa de propriedade da Odebrecht (mãe do Itaquerão corintiano). Ao reger uma orquestra delas, o músico demonstra como emular o som de mar para formar o nome Neymar (desculpe a rima pobre), ou para acompanhar a hola - outra invenção espontânea da torcida na Copa do México, em 1986 -, ou, batendo uma à outra, para recriar a sonoridade de Kaká, jogador que, salvo milagre de Deus ou sacrilégio de Felipão, dificilmente será titular em 2014, pela caxirolinha que vem jogando.
Contra a chacota, o chocalho? Nada: chacota mesmo é sacar que se pretende vender 50 milhões desses plásticos para oficializar o jeito de torcer durante a Copa a R$ 29,90 (um caxixi de junco sai por R$ 9 no Mercado Livre) e ainda com essa desculpinha de ser "sustentável". O povo, que pode ser pobre mas não é bobo, deu melhor uso à nova picaretagem estatal. Revoltado contra outro vexame ante o arquirrival Vitória, a torcida do Bahia atirou ao gramado as caxirolas recebidas na entrada.
O espetáculo, já batizado de Revolta das Caxirolas, futuramente poderá ser estudado junto a movimentos como a Balaiada, a Tropicália e o Tribalismo. Se o pessoal do Caxixibrás tivesse lido, em vez das letras de Carlinhos Brown, as crônicas de Nelson Rodrigues, saberia que o torcedor brasileiro não é um sujeito adestrado, amanteigado, que dorme ao som de uma caxirola qualquer. "A base sentimental da torcida é o ódio, e não o amor", escreveu o maior de nossos cronistas de futebol. E ainda: "Torcida é paixão, é euforia, é fúria, é embriaguez. Ninguém vai de fraque e monóculo a um jogo de futebol". Nem com caxirola, dona Dilma.
* Ronaldo Bressane, escritor e jornalista, codirigiu o documentário "Só quem é sabe o que é", sobre a saga do Corinthians na Série B

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