domingo, 15 de agosto de 2010

100 anos do Massacre na Chapada do Araripe...

CAPELA DO CALDEIRÃO, onde o beato José Lourenço comandava as cerimônias religiosas para os moradores do lugar. Em 11 de setembro de 2010, fará 100 anos que o beato José Lourenço e seus seguidores foram expulsos do Sítio Caldeirão, a 33 quilômetros do Crato. As cenas do massacre serão lembradas na região. 
Apontado como missionário do Nordeste, o religioso, cujo processo de canonização está em andamento, deixou a herança de um cristianismo social, aproximando o povo sertanejo num aprendizado de convivência social, articulando iniciativas e ações que hoje são expressas na construção, em regime de mutirão, de cisternas e mandalas. 
Natural de Sobral, Padre José Maria Antônio Ibiapina foi advogado, juiz, deputado e secretário de segurança do Ceará. Percorreu o Nordeste, construindo casas de caridade, cemitérios, igrejas, açudes e hospitais. Ibiapina e Zé Lourenço, cada um a seu modo, em épocas diferentes, mitigaram as dores e o sofrimento dos sertanejos. 
Por isso, os dois missionários da fé são lembrados com romaria, missa e apresentações artísticas no Sítio Caldeirão. A capela branca, que tem como padroeiro Santo Inácio de Loyola, se destaca na paisagem seca e árida. Ao lado da ermida, duas casas, um muro de laje de um velho cemitério, um cruzeiro e, no alto, as ruínas da residência do beato José Lourenço, líder de uma comunidade religiosa que tentou sobreviver às adversidades do tempo e do meio. É o que restou de um paraíso social e religioso que abrigou cerca de dois mil nordestinos que viviam da oração e do trabalho. 
A experiência sociocultural de âmbito religioso e popular conduzida pelo beato José Lourenço representou, na época, anos 20 e 30, o rompimento com o regime latifundiário predominante na região. Ainda hoje essa idéia sobrevive, não nos mesmos moldes, mas nas ações que as comunidades de base realizam para relembrar e resgatar os projetos do beato, que chegou ao Cariri atraído pela figura carismática do Padre Cícero. 
O caldeirão era uma comunidade auto-suficiente economicamente no que diz respeito à fabricação de instrumentos e ferramentas de trabalho utilizados nas oficinas, lavoura e no beneficiamento do consumo alimentar. Os remanescentes lembram que ali funcionavam engenho de rapadura, casa de farinha, tecelagem, carpintaria e oficina de ferreiro. Ao mesmo tempo em que crescia a fama do Caldeirão, transformado em celeiro agrícola do Cariri e santuário de oração do Nordeste, cresciam também as atenções das autoridades que viram naquele grupo social uma ameaça à ordem constituída. 
O beato José Lourenço foi um dos mais importantes dos seguidores de Padre Cícero. Em uma terra doada pelo religioso caririense quando ainda vivo, o beato José Lourenço, movido por suas crenças religiosas, fundou a Comunidade do Caldeirão. Organizada em moldes socialistas, a comunidade logo atraiu contra si o ódio de todas as forças conservadoras do Nordeste. Era considerada perigosa pelos grandes proprietários de terra e pelo clero do Cariri. Deixava os fazendeiros sem a mão-de-obra barata e podia significar, na grotesca visão dos poderosos, um embrião do comunismo. 
Artigo re-editado no tempo, original de Antônio Vicelmo, Sucursal Crato - Edição publicada em 25 de Julho de 2005

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