domingo, 27 de novembro de 2011

O cérebro dos deputados

O cérebro dos deputados 
Por Montserrat Martins 
Transtornos mentais são dez vezes mais frequentes entre os pobres que entre os ricos, mas isso pode ser interpretado de duas formas, segundo o Manual de Psiquiatria de Solomon e Patch: ou o estresse é o desencadeante, ou então “os gens da doença mental são alelos dos gens da pobreza”. E você, o que achou da hipótese de Solomon e Patch ? Talvez sua opinião seja condicionada pelo fato de você ter “gens da pobreza” ou “gens da riqueza” ou, talvez ainda, “gens da classe média”. Antes destes psiquiatras, alguém já havia pensado nisso: a tese da “raça ariana” superior, do Adolph Hitler, nada mais é do que uma teoria genética. 
Pois a genética, cada vez mais usada como “biotecnologia”, traz consigo também uma forma de interpretar os fatos e os comportamentos humanos que é carregada de ideologia. Quer dizer, é uma ciência sujeita a distorções de conteúdo político, como nessas bobagens de teorias de superioridade de raças ou de classes. A verdadeira ciência, é claro, inclui a genética, mas não como um fator absoluto e sim como um dentre outros múltiplos fatores. É o que se chama de enfoque “biopsicossocial” em assuntos humanos, ou seja, a ciência tem de considerar os fatores biológicos (que incluem a genética) mas também os psíquicos e os das ciências sociais (antropologia, sociologia, história, ciências políticas e por aí vai...). 
Uma polêmica ocorrida na prática, em Porto Alegre, serve de exemplo para estas questões teóricas. Geneticistas queriam pesquisar o cérebro de adolescentes internados na FASE (ex-Febem), o que supostamente traria benefícios com a identificação de algum padrão cerebral patológico comum a eles. Profissionais que atendem aos jovens se opuseram a tal pesquisa, que o Conselho de Psicologia também repudiou, e naquele momento alguém chegou a sugerir, como alternativa, que fossem pesquisar o cérebro dos deputados – pelo mesmo princípio, de verificar se existe alguma patologia comum a esse grupo social. 
O grupo dos internados na FASE, todos sabemos, só muito raramente inclui jovens de classe média ou alta, quer dizer, os fatores sociais são evidentes nos tipos de conduta que os levam para lá. Provém de regiões dominadas por gangues de tráfico, que os arregimentam. A teoria genética iria, portanto, no máximo “mistificar” as causas de seus problemas, na mesma linha de Solomon e Patch. Aliás, a FASE conta com atendimento psiquiátrico e os jovens em sua grande maioria já estão sendo medicados. Pois as possíveis conclusões de uma pesquisa no cérebro deles resultaria, na prática, somente em indicações de medicamentos que eles, de fato, já estão recebendo. 
Esta semana um dos autores daquela proposta de pesquisa, o médico e deputado Osmar Terra, escreveu em defesa do projeto de exames obrigatórios para detectar TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) antes de conceder a CNH, a habilitação para dirigir. É o PL 7483/2010, aprovado na Câmara, que foi agora ao Senado. À primeira vista parece uma forma de proteger a sociedade, partindo-se da premissa de que nossas ciências neuropsiquiátricas estejam aptas a tal tarefa. O fator mais relevante para os acidentes de trânsito, comprovadamente, é o uso de substâncias (seja álcool ou outras drogas), presentes em pelo menos metade dos acidentes, o que ainda não encontramos forma eficaz de combater. Tenho dúvidas se ampliar a “patologização” dos condutores para outros quadros psiquiátricos não nos levará ao cenário previsto por Machado de Assis em “O Alienista”. 
Teríamos de esclarecer melhor quais os critérios de tais neuropsiquiatras, se estão atentos para os fatores biopsicossociais ou se são filiados à teoria estritamente genética. Nada contra o deputado Osmar Terra que, aliás, é autor de um belo livro sobre comportamento, do ponto de vista neurológico. Toda forma de debate científico é importante e merece consideração, envolvendo também juízos de valor e eleição de prioridades. Do modo como o Código Florestal foi modificado na Câmara e no Senado, agora, eu daria prioridade para aquela proposta do estudo do cérebro dos deputados.
Fonte: REDE Os Verdes/via e-mail

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