A última medula dos ossos
por Christopher Goulart*
"Os fins justificam os meios.” Foi a declaração pública de um ex-analista de informações do Dops nas páginas de Zero Hora, ao justificar a tortura, defendendo isso “até a última medula dos ossos”. Ler algo tão revoltante, olhando para a foto de um senhor estampada no jornal, vangloriando-se de seu passado na ditadura militar, ocasiona-me uma profunda reflexão.
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Alguns contrários, outros favoráveis, tudo dentro de uma normalidade democrática. Mas ainda resta dúvida a respeito de a tortura ser um crime de lesa-humanidade; portanto, crime inafiançável?
A ninguém cabe alegar desconhecimento da convenção da ONU contra a tortura, ratificada pelo Brasil em 18 de dezembro de 1989 ou do artigo 5° da Declaração de Direitos Humanos que diz “ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante”. São regras da civilização. Mesmo assim, somos surpreendidos com apoios públicos incondicionais – “até a última medula dos ossos”, que apontam um retrocesso grotesco para a barbárie superada.
Sugiro ao senhor da foto que leia o artigo de Marcelo Rubens Paiva publicado recentemente em São Paulo, na forma de carta aos militares. Talvez este cidadão reveja seus conceitos. Talvez lembre que o pai do autor desse artigo, esse sim sofreu “até a última medula dos ossos”, torturado e assassinado nos porões da ditadura. A justificativa? Rubens Paiva era relator de uma CPI que investigava dinheiro da CIA para a preparação do golpe. Tornou-se um número a mais dentre os desaparecidos.
Sou, sim, favorável à revisão da Lei de Anistia, mas respeito opiniões contrárias. Também tenho uma história de vida diretamente ligada ao golpe civil-militar que expulsou minha família de meu verdadeiro país e me obrigou a nascer no exílio. Nem por isso ignoro a liberdade de expressar opiniões divergentes sobre um tema tão polêmico. Mas, com todo o respeito: a pregação aberta da tortura é hoje algo inconcebível para uma humanidade em constante estágio evolutivo.
*Presidente da Associação Memorial João GoulartFonte: Zero Hora - 05 de fevereiro de 2010
Postado por Luiza Estrella
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