domingo, 4 de julho de 2010

Estudo comprova gravidade de vazamento amazônico

Estudo comprova gravidade de vazamento amazônico 
Por Milagros Salazar, da IPS 
Lima – Devido ao vazamento de petróleo da empresa Pluspetrol no Rio Marañon, no dia 19 de junho, as águas contêm graxa e óleo que superam em milhares de vezes o limite máximo permitido, afetando mais de quatro mil nativos e mestiços no coração da Amazônia peruana.
“A mancha de petróleo cobriu toda a largura do Rio, com efeitos devastadores na fauna e na flora. Peixes e plantas aquáticas estão destroçados”, diz o informe elaborado pelo engenheiro químico Victor Sotero, do governamental Instituto de Pesquisas da Amazônia Peruana (IIAP), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente. 
A IPS teve acesso ao documento e aos resultados das provas de laboratório do vazamento na região de Loreto, quando foi perfurado o casco de uma barcaça que transportava óleo procedente do Lote 8, contratada pela Pluspetrol Norte, filial da argentina Pluspetrol. A empresa informou que o vazamento foi de aproximadamente 400 barris (de 159 litros) de petróleo. A análise das seis amostras, recolhidas entre 20 e 22 de junho na região, revela uma presença de graxas e óleos que oscila entre 10.800 miligramas por litro (mg/l) e 2.613.000 mg/l. 
A quantidade é alarmante se considerarmos que o limite máximo admissível destas substâncias na água para o consumo humano é de um miligrama por litro, ou de uma parte por milhão, segundo as leis peruanas.
“Com tal grau de contaminação, essas águas não podem ser usadas por estas populações até que sejam feitos novos exames ao longo dos próximos meses e a presença dessas substâncias chegar a zero”, disse Sotero à IPS. 
Há 28 comunidades ribeirinhas do Marañon afetadas, mais de quatro mil pessoas, segundo a Defensoria do Povo, entre eles nativos cocamas, localizados perto dos achuar, também atingidos pela contaminação. “Os irmãos reclamam água e alimentos. Eles tomavam água do Rio e se alimentavam dos peixes que foram embora devido ao vazamento”, disse o dirigente Edwin Vasquez, presidente da Organização Indígena do Oriente, para quem a água e os víveres, que a empresa e o governo de Loreto estão distribuindo, são insuficientes. 
O estudo do Laboratório de Substâncias Bioativas do IIAP diz que na primeira amostra, recolhida em 20 de junho na comunidade de Santa Rica de Castilla, no dia seguinte ao vazamento, foi encontrada a máxima concentração de graxa e óleo: 2.613.000 mg/l. “Praticamente, tudo era petróleo”, disse Sotero. Na amostra do dia 21 foram detectadas 32.900 mg/l. Essas duas primeiras amostras foram coletadas pelas próprias comunidades, já que Sotero só pode chegar à região no dia 22, quando selecionou quatro amostras adicionais de diversos pontos. 
Na comunidade de Saramuro, no chamado ponto zero, foram detectadas até 11 mil mg/l, e cem metros rio acima as análises marcaram até 11.300 mg/l. Os outros dois locais inspecionados por Sotero, 500 metros mais abaixo do ponto zero, marcaram 10.900 mg/l e 1.800 mg/l. Esta última amostra foi retirada em Santa Rita de Castilla. Também foi medido o pH, ou grau de acidez das águas, cujo “aumento foi pouco em comparação com o limite permitido. A alta contaminação acontece pelo óleo e a graxa”, assegurou Sotero. 
O especialista afirma que o óleo se acumulou sobretudo nas quebradas e margens do Marañon, afluente do Rio Amazonas. Também informou que a empresa não tem um “plano de contingência para auxílio à população ribeirinha em caso de desastres desse tipo”. Em um comunicado, porém, a Pluspetrol diz que conta esse plano. No entanto, Sotero insistiu que a empresa nunca o mostrou. O químico diz em seu informe que a população soube do acidente na noite do dia 19, embora tenha ocorrido às três da tarde, por isso continuaram consumindo água contaminada por várias horas. 
O diretor regional de Energia e Minas de Loreto, Roy Meza, informou à IPS que foram enviadas brigadas médicas às comunidades e que foram identificadas duas pessoas com males estomacais, mas ainda não está confirmado se pelo consumo de agentes tóxicos. A companhia informou, no dia 30, ter concluído a recuperação e limpeza dos restos de petróleo. Sotero recomenda em seu informe que seja feito “um monitoramento mensal ao longo do ano, e anual, a partir de 2011, na água, nos sedimentos, em espécies hidrológicas e no sangue da população afetada, para uma avaliação do alcance da contaminação”. 
A Direção Regional de Saúde também analisa as águas, mas ainda não se sabe o resultado. Segundo o ministro de Energia e Minas, Pedro Sánchez, a quantidade de barris derramados é muito pequena, se comparada com o vazamento no Golfo do México, onde pegou fogo, no dia 20 de abril, uma plataforma da British Petroleum. Diante disso, o líder nativo Vázquez pediu ao governo para “não minimizar o fato” e investigar com seriedade “para que os culpados sejam punidos”.
Os indígenas tornaram-se dolorosamente conscientes dos danos potenciais das atividades petroleira e mineradora. Dois rios foram contaminados pelo vazamento de um depósito de água com resíduos tóxicos da mineradora peruana Caudalosa na região mais pobre do país, Huancavelica, nos Andes do sul. Esse incidente ocorreu em 25 de junho e, segundo representantes da comunidade de Huachocolpa, vazaram cerca de 21 mil metros cúbicos dessa água. O ministro do Meio Ambiente, Antonio Brack, afirmou que haverá sanções para os responsáveis nos dois casos. A maioria das mineradoras costuma contestar as sanções que sofrem.
Segundo uma reportagem do projeto investigativo peruano IDL-Repórteres, apenas 22% das multas por fatos graves referentes a contaminação e por falta de segurança, entre 2007 e maio de 2010, foram cobradas pelo órgão fiscalizador. O valor das multas impostas e não cobradas pelo Estado supera os US$ 13 milhões. Ivan Lanegra, funcionário especializado da Defensoria do Povo, disse à IPS que deve haver um trabalho coordenado entre as instituições do Estado para investigar o ocorrido e dar urgente apoio às pessoas afetadas.
 
Fonte: IPS/Envolverde

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