sexta-feira, 4 de junho de 2010

O vazamento que não cessa Por Jaime Leitão

 O vazamento que não cessa
Por Jaime Leitão
Há dois vazamentos terríveis devastando a vida de milhares de habitantes do Estado da Luisiânia, nos EUA, desde o último dia 20 de abril.
O primeiro é de mais de 100 milhões de litros de óleo, que vazaram no Golfo do México e que vêm matando peixes e toda a fauna marinha de uma vasta região. Justamente no auge da pesca do camarão, que deveria ser este ano um dos melhores, acontece uma tragédia como essa.
O segundo vazamento é de natureza econômica, comprometendo a sobrevivência de um grande número de moradores que vivem da pesca e venda de peixes, camarões e caranguejos.
A BP (British Petroleum) está sendo acusada, a partir de documentos sigilosos divulgados no último domingo, de saber que havia riscos de vazamento e de não ter tomado nenhuma providência para evitá-lo.
Se há riscos, a função de uma empresa gigantesca como a BP é desenvolver toda uma logística para evitar o pior. Tudo indica que isso não foi feito.
Mais uma vez vemos a ânsia pelo lucro desmedido sendo colocada na frente de medidas de segurança. Depois do desastre, os prejuízos são incalculáveis: para o meio ambiente, os moradores e também para a BP, que terá que indenizar um grande número de pessoas e ainda responderá judicialmente pelo crime cometido.
A empresa utilizou desde abril os meios e os recursos mais variados para conter o vazamento, mas todos falharam, enquanto isso, o óleo se espalha pela Luisiânia, invade o Texas e poderá atingir outros estados. A própria British Petroleum admite que provavelmente só em agosto esse vazamento será contido. Mas isso não passa de especulação e de hipótese. Na verdade, nem o governo norte-americano nem a BP têm ideia de quando poderão frear esse que está sendo considerado o maior desastre ambiental da história dos Estados Unidos.
A população que vive esse drama terrível afirma que o vazamento está sendo muito pior do que os furacões que devastaram o Estado nos últimos anos, o Katrina e o Gustav. No momento em que estavam reconstruindo a sua vida, foram surpreendidos pelo petróleo. Há quem diga que o vazamento poderá atingir 399 milhões de litros, o que provocará catástrofe ainda maior.
Falta ainda conhecimento e tecnologia para explorar petróleo no fundo do mar.
Que esse gravíssimo acidente sirva de alerta para a Petrobras antes que ela comece a exploração do pré-sal sem os devidos cuidados, o que poderá ser tão desastroso quanto o que está ocorrendo no Golfo do México. Lidar com petróleo em áreas profundas exige um conhecimento que parece ainda não estar disponível. Mais do que a ganância por lucros estratosféricos, deve prevalecer o bom senso e a consciência de que uma empreitada dessa natureza não pode ser concretizada sem uma retaguarda que garanta o seu sucesso. O que aconteceu no Golfo do México serve de lição para muitas empresas e muitos governos.
O autor é cronista, poeta, autor teatral e professor de redação. jaimeleitao@linkway.com.br
Fonte: Jornal Cidade de Rio Claro

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