quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A Sida nos 364 dias em que é esquecida

Editorial 
Por Isabel Stilwell
A Sida nos 364 dias em que é esquecida
Os holofotes viraram-se, ontem, sobre a sida. De abrir todos os telejornais, e de ser manchete dia sim, dia não dos jornais, passou a um plano secundário, ficando quase reservada para o seu dia anual. E, no entanto, em Portugal, há mais de 42 mil pessoas infectadas pelo VIH, mais 11 mil do que em 2001. Ou seja, há milhares de portugueses que, todas as manhãs, 365 dias por ano, e para o resto das suas vidas, vão acordar com um pensamento que lhes tingirá todas as horas: “Eu tenho sida.” E milhares de outros que descobrirão nesse dia, ou no seguinte, que também são portadoras do vírus. Ou seja, a doença está longe de ter sido erradicada, mais ainda está longe de ter cura ou vacina. 
O infecciologista Kamal Mansinho dizia que o facto de os medicamentos terem permitido aumentar a esperança e a qualidade de vida dos doentes, levou a que nos convencêssemos de que a medicina tinha feito mais um milagre, “tornando-nos mais complacentes com os riscos de contrair a doença”. Complacência, recordou Henrique Barros, coordenador nacional para a infecção pelo VIH/Sida, que não faz sentido: “As relações sexuais, principalmente as ocasionais, nunca podem ocorrer sem preservativo”, alertou. 
A questão já não é falta de informação, mas mudanças de comportamento e percepção do risco, que são coisas muito diferentes, e muito mais difíceis de conseguir. E é por isso que Kamal Mansinho, que continua a receber jovens infectados na sua consulta no hospital, insiste que “mais do que falar exclusivamente sobre o benefício do preservativo, é muito importante trabalhar em conjunto com eles a percepção do risco”. E valores como a responsabilidade e o respeito pelos outros. 
Mas que se desenganem os que acreditam que a falta de cuidado é apanágio dos mais novos: os estudos revelam que a faixa etária que mais precisa de educação sexual é, sobretudo, a dos homens de “meia-idade”, que ou se julgam imunes, sabe-se lá porquê, ou vivem “perdidos por cem, perdidos por mil”, num jogo de roleta russa. São as mulheres, heterossexuais e com mais de 50 anos, a faixa etária onde surgem mais casos, muitas delas vítimas inocentes e surpresas de uma doença que descobrem não ser, afinal, “coisa de gays e drogados”.
Fonte: Destak
Isabel Stilwell/editorial@destak.pt

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