terça-feira, 19 de julho de 2011

Novas esperanças e perguntas em conferência sobre a Aids em Roma

 
Novas esperanças e perguntas em conferência sobre a Aids em Roma
Por Christine Courcol  
 ROMA, Itália — A conferência científica sobre a Aids aplaudiu nesta segunda-feira um importante estudo segundo o qual o tratamento precoce das pessoas infectadas pelo vírus impede 96% dos casos de transmissão da doença, o que pode transformar a cara da epidemia. 
"Os dados provam que o tratamento do HIV pode conduzir à erradicação da epidemia: as provas estão aqui!", exclamou Elly Katabira, presidente da International AIDS Society (IAS), organizadora da conferência. 
Três estudos sobre o tratamento utilizado de maneira preventiva foram apresentados simultaneamente a 5.500 cientistas, médicos e pesquisadores que se reúnem durante quatro dias para discutir sobre os novos avanços no tratamento da epidemia. 
O primeiro estudo, denominado HPTN052, foi dirigido por Myron Cojen (Universidade da Carolina do Norte) e publicado em maio nos Estados Unidos. 
A pesquisa foi realizada em nove países - África do Sul, Índia, Brasil, Estados Unidos, Botsuana, Quênia, Malaui, Tailândia e Zimbábue, - onde combinações de antirretrovirais foram fornecidas a 1.763 casais sorodiscordantes - um soropositivo e outro não - em sua grande maioria (97%) heterossexuais. 
Os outros dois estudos, publicados na semana passada, mostram que um tratamento fornecido a uma pessoa não infectada, mas que tem risco, pode protegê-la da infecção em quase dois de três casos. 
Os três estudos causaram muito entusiasmo, embora também tenham gerado muitas perguntas sobre a maneira de aplicar as conclusões e o problema central do financiamento, sem esquecer de outros meios preventivos, como o preservativo. 
No primeiro estudo HPTN052, o tratamento foi administrado mais ou menos cedo, no início da infecção, definida por uma queda do nível de células CD4 do sistema imunológico que ataca o vírus. 
Na metade dos casais, a pessoa infectada foi tratada imediatamente e na outra metade esperou-se que a quantidade de CD4 caísse a menos de 250 ou até que a pessoa sofresse uma infecção denominada oportunista (doença causada pela queda da imunidade), conforme os critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS). 
No total, houve 29 casos de infecções, das quais 28 em pessoas foram tratadas mais tarde. Além disso apresentou-se um benefício para as pessoas tratadas mais cedo, já que neste caso surgiram 41% menos doenças oportunistas ou mortes. 
Além disso, o único caso de infecção dos casais tratados mais cedo ocorreu provavelmente logo após o início do tratamento, ou seja, quando ainda não havia tido tempo para fazer efeito. 
A OMS, que devia apresentar em Roma suas recomendações sobre a detenção da doença e o tratamento nos casais sorodiscordantes, atrasou a publicação do informe. 
Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional americano sobre as doenças infecciosas (NIAID), que patrocina o estudo, destacou "a falsa dicotomia entre os recursos dados ao tratamento e os administrados à prevenção". 
Fauci disse que "mudaram" os parâmetros e agora "é possível ter um impacto maior sobre a epidemia". Também ressaltou que quando "há menos pessoas infectadas" haverá, consequentemente, "menos pessoas infectadas" no futuro. 
Michel Kazatchkin, diretor do Fundo Mundial de luta contra a Aids, mostrou-se, no entanto, realista. 
Para ele, em vez de pensar em tratar as pessoas assim que a infecção aparecer, devem ser tratadas primeiro as pessoas que não tiveram tratamento embora o requeressem, conforme os critérios fixados pela OMS. 
"Atualmente há 40% de cobertura de necessidades quando se aplica o tratamento a partir de uma queda dos CD4 para 350", reiterou. 
Acrescentou que é necessário "de um ponto de vista da saúde pública e ética começar pelas prioridades". 
Para ele, "colocar todas as pessoas infectadas sob tratamento não é possível nem do ponto de vista dos recursos, nem do ponto de vista operacional". 
Lembrou a este respeito que a metade das pessoas infectadas não sabem que estão com a doença. 
No fim de 2010, mais de 34 milhões de pessoas viviam com o vírus, dois terços delas na África, segundo a ONUAIDS. A infecção matou cerca de 30 milhões de pessoas em 30 anos. 
Fonte: AFP

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